A adoção pelas filiais brasileiras, e por empresas nacionais, do modelo de autorregulamentação da publicidade, assinado pelos maiores fabricantes multinacionais de alimentos, e que estabelece que os anúncios de seus produtos devam ser dirigidos aos pais e não mais às crianças, é uma demonstração muito oportuna de que é perfeitamente possível estabelecer regramentos de bom senso, em qualquer atividade, sem a interferência governamental.
O modelo que acaba de ser adotado baseia-se no Termo de Compromisso EU-Pledge, assinado na Europa em 2007, entre anunciantes, como Nestlé, Burger King, Coca-Cola, Danone, Ferrero, General Mills, Kellogg’s, Mars, Pepsico e Unilever. A iniciativa foi, na ocasião, uma resposta equilibrada à tentativa da Suécia, quando presidia a União Europeia, de tentar fazer valer em todos os países-membros da Comunidade as restrições radicais à publicidade impostas naquele país.
Com isso, evitou-se que, a partir do continente europeu, avançasse pelo mundo qualquer inspiração de encorajamento àqueles que defendem, de maneira arraigada, atitudes extremadas de pura e simples proibição da publicidade. E foi dado um exemplo magnífico de como se pode conduzir temas sensíveis e de interesse global sem recorrer a atitudes de violência à liberdade e à democracia.
Fica demonstrado que a defesa do interesse do consumidor não é propriedade de nenhum grupo ideológico em particular, mas é parte inseparável do escopo dos atos que conduzem a política empresarial de grupos que construíram suas histórias sobre uma base sólida de confiança.
Não há nada mais devastador para as marcas, afinal, do que a percepção pública de que não representam empreendimentos que atuam com compromisso ético. E não há nada mais público do que a publicidade. Daí, a atenção especial que a publicidade sempre haverá de merecer na proteção das marcas.
Os signatários do termo de compromisso que revisa os procedimentos da comunicação de alimentos são empresas que conquistaram posições cativas na preferência dos consumidores e, mais do que isso, alcançaram verdadeiro apreço por parte deles.
Sua decisão de observar um cuidado particular com aquilo que se refere às crianças não surpreende, portanto, e obedece, simplesmente, à vocação dos empreendimentos vencedores de acompanhar a evolução dos fatos e atender sempre às expectativas mais caras de quem compõe seu maior patrimônio: seus clientes.
É um momento muito feliz para a publicidade brasileira, que vê triunfar, mais uma vez, um modelo regulatório defendido há mais de 30 anos pelo Conar e muitas vezes combatido por quem não acredita que uma sociedade livre – e nunca uma sociedade tutelada – será sempre mais justa e mais eficaz na defesa dos interesses dos seus cidadãos. (Editorial de Armando Ferrentini no PropMark)