O Mineirinho e a Ética
Elóy Simões*
Mineirinho estava cansado de ouvir rumores de que a esposa o traia. Um dia, como sempre, saiu para o trabalho no horário de costume. Depois que a esposa se despediu e fechou a porta, ele rapidamente subiu em uma mangueira e ficou ali, observando o entra e sai da casa. Dali, viu quando um mulato forte, chegou e ficou em pé, embaixo da mangueira. Pegou uma manga no chão, chupou. Pegou outra, chupou também. Repetiu várias vezes. Mineirinho só sacando. Então, a esposa abriu a porta da casa e chamou:
- Vem, meu amor, meu marido ja foi!
O mulato jogou última manga no chão, limpou os lábios com um lenço e entrou na casa do Mineirinho que, furioso, desceu da mangueira:
- Hoje pego os dois! Vou matar eles!
Foi no armário de ferramentas, pegou um facão, e entrou na casa justamente quando o mulato se deliciava com os seios da mulher. Gritou:
- Nego, ocê vai morrê!
Mas o mulato não se intimidou: tirou da capanga um trezoitão e apontou para Mineirinho:
- Morrer por quê?
Mineirinho sentiu a barra, e a única coisa que lhe ocorreu, foi:
- Ocê tava chupando manga e agora tava tomando leite, uai! Faz mal!!!
2. O Conselho de Ética do Sinapro/SC reuniu-se pela primeira vez. E diante da falta de denúncia informal, fez um balanço das que chegaram… informalmente. Eram graves. Gravíssimas. Algumas, feitas por grupos de agências. E no entanto, diante da falta de um documento denunciatório, nada pode fazer.
Os denunciantes disseram temer represálias. E fizeram como o Mineirinho.
3. Para quem teme, é bom lembrar que a preocupação com a ética profissional na comunicação de marketing vem de longe. O decreto 57.690\66, diz na terceira seção:
“Art. 17. A Agência de Propaganda, o Veículo de Divulgação e o Publicitário em geral, sem prejuízo de seus deveres e proibições previstos neste Regulamento, ficam sujeitos, no que couber, aos seguintes preceitos, genericamente ditados pelo Código de Ética dos Profissionais de Propaganda a que se refere o artigo 17, da Lei 4.680, de 18 de junho de 1965;
1.Não é permitido:
a) publicar textos ou ilustrações que atentem contra a ordem pública, a moral e os bons costumes;
b) divulgar informações confidenciais relativas a negócios ou planos de Clientes-Anunciantes;
c) reproduzir temas publicitários, axiomas, marcas, músicas, ilustrações, enredos de rádio, televisão e cinema, salvo consentimento prévio de seus proprietários ou autores;
d) difamar concorrentes e depreciar seus méritos técnicos;
e) atribuir defeitos ou falhas a mercadorias, produtos ou serviços concorrentes;
f) contratar propaganda em condições antieconômicas ou que importem em concorrência desleal;
g) utilizar pressão econômica, com o ânimo de influenciar os Veículos de Comunicação a alterarem tratamento, decisões e condições especiais para a propaganda;
II. É dever:
a) fazer divulgar somente acontecimentos verídicos e qualidades ou testemunhos comprovados;
b) atestar, apenas, procedências exatas e anunciar ou fazer anunciar preços e condições de pagamento verdadeiros;
c) elaborar a matéria de propaganda sem qualquer alteração, gráfica ou literária, dos pormenores do produto, serviço ou mercadoria;
d) negar comissões ou quaisquer compensações a pessoas relacionadas, direta ou indiretamente, com o Cliente;
e) envidar esforços para conseguir, em benefício do Cliente, as melhores condições de eficiência e economia para a sua propaganda;
f) representar, perante a autoridade competente, contra os atos infringentes das disposições deste Regulamento.”
3. No livro Hiper Publicidade, volume 2, organizado por Clotilde Perez e Ivan Santo Barbosa e editado pela Thomson, Gino Giacomini Filho – doutor e livre-docente em Publicidade e Propaganda da Eca-Usp, relaciona o que ele chama de “atitudes corporativas que envolvem discussões éticas”. Entre elas:
“Comissionamento: existem normas que prevêem o pagamento de comissão, por parte dos veículos de comunicação, exclusivamente a agenciadores, legalmente instituídos como tal. Porém, muitos veículos são criticados por conceder descontos a anunciantes diretos ou intermediários que não se caracterizam como agências de propaganda.”
“Reatividade de veículos: existem veículos de comunicação que se condicionam a manter atitudes positivas com anunciantes, se estes anunciarem em seu espaço editorial.”
4. Uma questão que logo aflora quando se fala sobre ética profissional, é vale a pena denunciar para manter um padrão ético? Pesquisando para escrever estas mal traçadas, encontrei, na internet um artigo assinado por Rosana Soibelmann Glock e José Roberto Goldim sob o título Ética Profissional é Compromisso Social, que afirma, a certa altura:
“Se sua tarefa é varrer ruas, você pode se contentar em varrer ruas e juntar o lixo, mas você pode também tirar o lixo que você vê que está prestes a cair na rua, podendo futuramente entupir uma saída de escoamento e causando uma acumulação de água quando chover. Você pode atender num balcão de informações respondendo estritamente o que lhe foi perguntado, de forma fria, e estará cumprindo seu dever, mas se você mostrar-se mais disponível, talvez sorrir, ser agradável, a maioria das pessoas que você atende também serão assim com você, e seu dia será muito melhor.”
(…) “O varredor de rua que se preocupa em limpar o canal de escoamento de água da chuva, o auxiliar de almoxarifado que verifica se não há umidade no local destinado para colocar caixas de alimentos, o médico cirurgião que confere as suturas nos tecidos internos antes de completar a cirurgia, a atendente do asilo que se preocupa com a limpeza de uma senhora idosa após ir ao banheiro, o contador que impede uma fraude ou desfalque, ou que não maquia o balanço de uma empresa, o engenheiro que utiliza o material mais indicado para a construção de uma ponte, todos estão agindo de forma eticamente correta em suas profissões, ao fazerem o que não é visto, ao fazerem aquilo que, alguém descobrindo, não saberá quem fez, mas que estão preocupados, mais do que com os deveres profissionais, com as pessoas.”
“As leis de cada profissão são elaboradas com o objetivo de proteger os profissionais, a categoria como um todo e as pessoas que dependem daquele profissional, mas há muitos aspectos não previstos especificamente e que fazem parte do comprometimento do profissional em ser eticamente correto, aquele que, independente de receber elogios, faz a coisa certa.”
4. Outro artigo, de aluno o Curso de Mestrado da Fundação Getúlio Vargas. Rodolfo Maciel Dourado, sob a orientação do prof. Dr. Hermano Roberto Thiry-Cherques, afirma, a acerta altura:
“A gestão da ética nos negócios e das relações de trabalho é um dos pilares de sustentação das empresas. As instituições que pretendem ter vida longa necessitam estabelecer relações éticas com todos os seus públicos.
Em negociações comerciais, a necessidade da existência de regras de comportamentos bem como direitos e deveres respeitados e obedecidos é talvez ainda mais importante. Em ética empresarial, a menor das infrações provoca um impacto gravíssimo na reputação de uma companhia ou das equipes que a compõe. O que foi construído em um longo tempo é perdido rapidamente. Um exemplo de Prejuízo foi da empresa Siemens que numa atitude de tentar subordinar uma parte do processo de negociação, teve um prejuízo de 1,4 bilhões de dólares. Quanto mais houver obediência espontânea de ética, menos tempo e dinheiro serão desviados para a defesa de eventuais comportamentos não-éticos.
A ética nas empresas representa um elemento mediador das práticas, guia e orienta as relações humanas e incentiva os indivíduos a constituírem um ambiente de harmonia norteado nos valores humanos.
O autor cita o que chama de “algumas vantagens das empresas éticas”:
- “Desenvolvem relações de confiança mais estáveis e lucrativas com seus clientes, sejam internos ou externos;
- Criam um ambiente de trabalho saudável e consequentemente mais produtivo;
- Tornam positivas as experiências de compra ou venda nas transações comerciais;
- Aumenta a confiança e reciprocidade;
- Empresas com padrões éticos têm menos problemas de furtos, sabotagem, discriminações e depredação das instalações;
- Minimizam riscos de escândalos que destroem carreiras e companhias;”
5. Não cabe a mim responder à pergunta que fiz lá em cima. É uma questão de foro íntimo. Lembro, no entanto, que o Conselho de Ética é a grande oportunidade que o Sinapro/SC oferece de passar a limpo a questão, jogando fora o que atrapalha o perfeito funcionamento da atividade em Santa Catarina. Ou de deixar tudo como está, como fez o Mineirinho.
*Publicitário, jornalista, professor e membro do Conselho de Ética do Sinapro/SC





