Artigo do diretor regional do McCann Worldgroup para América Latina e Caribe aborda o futuro da propaganda sob uma perspectiva latino-americana:
Quando me pediram para escrever sobre o futuro da propaganda, sugeri falar mais sob uma perspectiva latino-americana do que do ponto de vista do Brasil. Essa é a minha responsabilidade na McCann, minha principal experiência e pensamento, e creio que esse “olhar” regional poderia interessar mais ao leitor.
Vou tentar fazer isso focando em três questões:
1) Nós seremos mais ou menos criativos?
Todo ano nos perguntamos se a qualidade do nosso produto criativo vai melhorar ou piorar. Também olhamos para Cannes e para outros festivais globais para checar se a performance da América Latina, especificamente Argentina e Brasil, será melhor ou pior que no ano anterior. Apesar de representarmos mais ou menos 7% do mercado mundial da propaganda (e do PIB mundial) temos 10% ou 15% da premiação dos festivais globais. É muita diferença…
Minha percepção como consumidor que vê televisão, lê jornais e revistas, ou navega pela internet todo dia é que haverá menos trabalhos premiados, mas haverá um crescimento do padrão de qualidade na região. Por quê? O mercado e a profissão entraram em um novo estágio. Há muito mais dinheiro envolvido do que antes.
Algumas das grandes mentes criativas se transformaram em empreendedores ou gestores. Os clientes estão em busca de resultados, mais que nunca. Todos esses fatores estão levando o produto criativo a ser mais “seguro” e, me desculpem, mais previsível. Serão necessárias uma ou duas gerações, e possivelmente uma crise econômica, para voltarmos a ter uma comunicação realmente agressiva a criativa aqui na América Latina, como aquela que era produzida nos anos 90 e na primeira parte do século 21. Você precisa ter “sangue nos olhos” para ser realmente criativo e eu vejo pouca gente com sangue nos olhos em nossa indústria hoje.
2) Os clientes vão mudar?
Tanto os clientes globais como locais estão crescendo. O tamanho do negócio e do orçamento de marketing está crescendo. A qualidade dos seus profissionais está crescendo. Hoje basicamente não há diferença para um profissional de agência se relacionar com um cliente francês, americano ou brasileiro. As sofisticações são semelhantes. As ambições são semelhantes. Os medos também são. Dito isso, existem duas grandes questões que devemos tentar responder.
Primeiro: nossos clientes estão realmente abraçando a comunicação integrada? Minha resposta é sim e não. Sim porque podemos ver mais consistência e mais soluções de “media neutral” à nossa volta. Não porque a televisão ainda é a principal mídia, ainda dita a maioria das regras do jogo e a maior parte das soluções criativas. Somente quando o digital se tornar uma mídia de massa é que vamos ver o real desafio para o mercado dominante da TV. Não antes disso.
Segundo: nossos clientes estão realmente preocupados em medir o ROI (retorno sobre o investimento)? De novo, minha resposta é sim e não. Sim… em teoria. Todo mundo fala sobre isso. É o novo ícone da indústria de marketing. Se fala mais que o tema “digital”. Não… quando se fala seriamente em investir grandes somas em pesquisa e reunir dados para medir o verdadeiro ROI do orçamento de marketing ou de uma campanha específica.
Há curiosidade, mas também um pouco de medo de deixar que os dados levem a escolhas que supostamente deveriam ser subjetivas e baseada em talento.
Mas isso vai mudar, assim que o atual mercado for substituído por um mercado mais estagnado e quando a vantagem competitiva for cada vez mais importante. Nesse estágio cada dólar investido será medido e comparado com o que seu concorrente estará fazendo.
3) A agência tradicional está morta?
O atual ambiente competitivo, com redes globais como da McCann, joint ventures como da AlmapBBDO e agências locais como a Africa, vai se manter. A estrutura das agências e departamentos vai sofrer alguma transformação, mas nada muito radical irá acontecer.
A guerra pelos talentos vai continuar. Mas, duas coisas - isso nós todos sabemos – vão mudar. A remuneração por comissão vai acabar e os “fees” serão mais e mais importantes. Isso está sendo conduzido pelos clientes globais e tem influenciado as empresas locais. As antigas gerações odeiam, mas isso é um fato e é melhor aceitá-lo e aprender a fazer dinheiro em um ambiente mais transparente.
O digital também está claramente provocando mudanças, mas ainda é muito cedo dizer se elas serão boas ou ruins. Sabemos que há inovação do ponto de vista estratégico, a velocidade de execução é diferente, o modelo de negócio é completamente novo. Mas o triângulo entre a construção de marca do cliente, a busca do consumidor por um relacionamento com as marcas e o papel da agência em fazer esses dois se encontrarem, isso nunca vai mudar. Pelo menos é o que espero.
Luca Lindner é diretor regional do McCann Worldgroup para América Latina e Caribe.